Barrigudos

Nem toda despedida é triste
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(Rita escreve em preto, Torero, em azul)

 depedida

Há exatamente um ano nós começávamos este blog.

Eu estava grávida de quatro meses do Matias.

O blog começou bem piadento, cheio de gracinhas de pais recém grávidos.

Foi uma delícia escrever sobre as coisas da gravidez e ir trocando experiências com os leitores.

Era divertido contar como descobrimos a gravidez, o primeiro ultrassom, o sono de Rita, seus enjoos, etc…

Mas tudo mudou. Matias veio antes do tempo. Bem antes do tempo.

Rita estava num salão de beleza e a bolsa estourou.

Era um fim de tarde de sábado.

Por sorte, o trânsito estava bom. Cheguei rápido ao salão e rápido fomos para a maternidade.

Aí o assunto ficou sério. Nós não tínhamos ideia do que era prematuridade, até passar por ela. Matias nasceu com pouco mais de sete meses, e com dois quilos e cem gramas. Foram 23 dias de UTI, com muito choro, muito medo de perdê-lo.

Descobrimos que hoje 12% dos bebês são prematuros. Uma pequena multidão. E desconhecida.

E na prematuridade está o maior risco de mortalidade dos recém-nascidos. É um assunto sério.

Acho que ajudamos a colocar o assunto em pauta. Tanto que Matias foi parar no “Câmera Record” e no “Encontro com Fátima Bernardes”.

A leitura do blog cresceu muito. E também o número de comentários. Vários outros pais de prematuros entraram em contato conosco. Ficamos sabendo de histórias muito interessantes, e algumas delas foram publicadas aqui.

Acho que essas histórias, e as nossas, foram úteis para alguns pais que tinham acabado de ter prematuros. E essa talvez tenha sido a grande função do blog. Ele serviu para mostrar a alguns pais que a prematuridade não é o fim do mundo.

Não é fácil, mas não é o fim do mundo.

Pensando bem, é o começo. Só que é um começo que começa antes.

Hoje Matias já come sopa, frutas, fica sentado, ensaia engatinhar e conversa com a gente em seu vocabulário próprio, cheio de “dé, dé, dés”. Está ganhando peso (já chegou aos nove quilos), vem crescendo bastante e cada vez mais sai da vida de um prematuro e entra na rotina de um bebê normal.

Nós também estamos voltando à nossa vida normal. Quer dizer, normal mas diferente, porque nunca mais será igual.

Por isso, este será nosso último texto no blog. Foi um prazer escrever nossas experiências e apreensões, grandes medos e pequenas vitórias.

Todas as nossas crônicas ficarão aqui, e esperamos que eles sirvam para provocar algumas risadas e animar outros pais, principalmente os pais de prematuros.

Agora, com licença, temos uma fralda para trocar e uma Copa para assistir.

de fralda

Nacopa

 


Barrigudos na TV UOL
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Hoje, na TV UOL, uma reportagem em vídeo sobre prematuros. Matias, Rita e eu (de passagem) estamos lá.

O link é este:

http://tvuol.uol.com.br/video/maes-falam-sobre-a-experiencia-de-ter-um-bebe-prematuro-04024D9A3060D4C94326

 

 

 


“A dor que se sente na própria pele é sempre maior”
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Hoje, quem conta a sua história é um pai, Marco Nicola, que revela sentimentos que todos na UTI temos (e escondemos).

O nascimento de Maria Fernanda

Maria Fernanda chega ao mundo

Como todos os que escreveram aqui sobre esse assunto, também vivi durante um tempo com minha bebê na UTI. Durante os dias em que minha filha esteve internada, pude experimentar diversos sentimentos, entre eles, vários picos de alegria e medo, muito medo.

Mas a sensação mais curiosa que eu pude observar nesse período foi a percepção de quanto o nosso problema é sempre o pior de todos, não importa o quanto de ruim aconteça com o seu próximo, a dor que você sente na sua própria pele é sempre maior! Isso pode soar deveras egoísta, mas infelizmente é verdade. E estive dos dois lados desse sentimento…

Era início do período de internação, minha filha estava entubada, recebendo várias medicações e eu e minha esposa estávamos com o coração mais apertado do que nunca, afinal, nossa pequena princesa havia nascido prematura e corria risco de vida, assim como vários outros bebês daquela sala da UTI, onde ficavam alguns dos casos mais graves. Então, em um dia pela manhã, uma das incubadoras aparece vazia, ninguém pergunta nada, mas todos sabem o que aconteceu. Essa é uma situação que infelizmente se repetiu mais de uma vez…

E aí que o sentimento aparece, a mais horrível das sensações de felicidade. Sim, usei a palavra felicidade, pois, ao contrário do outro bebê, minha filha estava viva! Sim, é horrível quando colocado dessa forma, mais quem eu mais amava estava viva! Podem me apedrejar, me chamem de insensível e egoísta, mas nesse momento eu olhava para um bebezinho de menos de 1kg que se agarrava a vida com  todas as suas forças. E esse bebezinho que eu olhava era nada mais nada menos que o MEU bebezinho, MINHA pequena Maria Fernanda.

Mas minha vez iria chegar…

Maria Fernanda toma leite por uma pequena seringa.

Maria Fernanda toma leite por uma pequena seringa.

Passados longos meses de UTI você começa a se acostumar com a rotina do hospital. Com o corredor onde ficam os pais, com os horários das mamadas e com a troca de turno da equipe de enfermagem. Entre esses momentos sempre há grupinhos conversando, falando sobre os bebês, sobre pareceres médicos e outros assuntos. E inevitavelmente surgem as conversas sobre o tempo de internação e a expectativa da alta. Foi quando alguns pais estavam exaustos daquela rotina, estavam lá, de acordo com eles, há “longas” duas semanas. As esposas perto de um ataque de nervos, diziam eles, situação insustentável. Os médicos deveriam dar a alta logo…!!! Foi então que olharam para mim e perguntaram há quanto tempo eu estava lá. Quatro meses, foi minha resposta naquela época. Foi inevitável, no rosto deles havia uma expressão de pena, mas era como se eu pudesse ver o alívio de suas almas, pois nenhum deles ficaria mais que duas ou três semanas. Alguns bebês apenas tomavam banho de luz por causa de icterícia… Eu quase podia ver a tal da horrível felicidade tomando conta dos seus corações. Era muito triste para eles saberem que alguém estava ali já há quatro meses, mas esse alguém não era nenhum deles… Era minha vez de estar do lado do sofrimento maior, mas eu não podia julgá-los de forma alguma, pois quem tem um filho sabe qual é esse sentimento, essa ligação, esse impulso por cuidar e proteger. É o bem mais precioso!

E é isso que nos impulsiona para frente. Não me importava o quanto os filhos deles estavam em melhor ou pior situação que minha filha. O foco sempre foi todo para ela, não havia mais nada além dela!

E quando eu já achava que o meu fardo poderia estar entre os mais pesados de todos, chegava a notícia de algum bebê que havia passado por uma cirurgia minutos após o nascimento. Minutos após o nascimento! Como é possível…? E instantaneamente meu fardo ficava um pouco mais leve.

O pezinho de Maria Fernanda

O pezinho de Maria Fernanda

Maria Fernanda nasceu dia 15 de agosto de 2013, como apenas 825 gramas. Considerada prematura extrema, não foi para o colo da mãe após o nascimento, e sim para uma incubadora. Foi entubada depois de nascer e, semanas depois, quando já estava em ar ambiente, foi mais uma vez entubada após o rompimento de um vaso sanguíneo na sua cabecinha. Foram duas convulsões por causa disso, vários medicamentos e procedimentos. Hemorragia de grau 3, que Maria Fernanda tirou de letra e seu organismo absorveu tudo, sem deixar sequelas. Esse período, das hemorragias e convulsões, foi particularmente marcado pelo “longo” corredor. A sala da minha filha era a última do corredor, que não tinha mais que uns 15 metros, mas, percorrê-lo todas as manhãs, esperando que nada tivesse acontecido durante a noite, era uma ansiedade sem igual. Principalmente se ao final do corredor houvesse o encontro com a porta fechada devido a algum procedimento em algum dos bebês. Sempre pairava a pergunta: “Será algo com Maria Fernanda?”.

Durante toda a internação, foram dois PICs, a dissecação de uma veia do pescoço para receber medicação e diversos furinhos para colher sangue. A contínua esperança das noites sem intercorrências (palavrinha assustadora) e da melhoria dos parâmetros, principalmente o torturante número que indica a saturação de O2. E veio então a briga com os aparelhos para respirar sozinha e depois a briga para mamar todo o volume estipulado, sem usar a sonda. Uma cirurgia cardíaca para fechar uma CIA, com direito até a mudança de hospital e depois retornar para a UTI Neonatal. E então, depois disso tudo, a tão sonhada alta…

Dia 18 de fevereiro viemos para casa, após 6 meses e 3 dias de UTI.

Nesse período participei da vida de duas das mulheres com uma força que eu jamais pude imaginar que existisse. Minha esposa, que todos os dias deixava seu coração no hospital ao voltar para casa sem nossa filha. Que brigava com os médicos e com as enfermeiras, que dormia no hospital, que tirava leite cinco vezes por dia. Que sempre esteve ao lado da nossa filha e nunca duvidou da sua vitória.

E no meio de todo esse furacão, bem no centro mesmo, a mais forte de todas as mulheres. Aquela que se agarrou a cada sopro de vida para ser vencedora: MINHA FILHA.

 

Finalmente em casa

Hoje faz uma semana que Maria Fernanda está em casa


Seis bebês, seis meses depois.
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Por estes dias, num sábado ensolarado, houve um encontro interessante no Ibirapuera.

Seis crianças, seis pais e seis mães que seis meses atrás estavam na UTI, resolveram  fazer um piquenique no parque.

Cento e oitenta dias atrás, nós estávamos apreensivos, comemorando cada grama que nossos prematuros engordavam. Foi um período difícil, cheio de nuvens cinzentas. Mas isso ficou para trás e resolvemos festejar.

Foi uma alegria reencontrar todo mundo. Não só por revermos uns aos outros, mas por nos vermos fora do hospital, com crianças saudáveis e fazendo gracinhas. Foi uma espécie de baile de debutantes. Cada bebê mais lindinho que o outro, com uma roupinha mais fofinha que a outra.

A porta do MAM parecia um estacionamento de carrinhos de bebês. Estavam lá Matias, Bento, Pedro, Sofia, Isabela e Maria.

Nossas histórias pós-UTI foram diferentes e iguais.

Iguais porque todos viraram pais e mães mais zelosos e encanados do que o normal.

Diferentes porque cada bebê é único e cada um evoluiu do seu jeito: uns já começaram a comer papinha, outros estão no suquinho de frutas. Uns estão magrinhos, outros gordinhos (aliás, Matias era o mais pesado dos seis).

Houve bebê que cresceu pouco (mas está muito bem), mãe que teve depressão (mas já se recuperou), mãe que continua amamentando no peito e mãe que teve que parar por falta de leite. Mas todas tiveram seus percalços com amamentação, o que prova que amamentar prematuros é uma tarefa muito mais árdua que o normal.

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O piquenique estava mais para um banquete. Todos capricharam nas guloseimas, que iam de deliciosos sanduichinhos de diversos sabores, embalados um a um, passando por tortas doces e salgadas, biscoitinhos de queijo, grissinis, salada de frutas, bolinhos de milho, fubá e chocolate, sucos naturais diversos, água e café com leite.

Confesso que comi um pouco de tudo. Afinal tenho que zelar pelo nome deste blog.

Além da alegria que foi encontrar todo mundo com seus bebês saudáveis, foi muito importante trocar experiências com as mães e os pais. Assim ficamos sabendo de táticas e condutas diferentes de cada um dos pediatras, trocamos receitas de sucos e comidinhas para os bebês, descobrimos apetrechos diferentes que nos ajudam no dia-a-dia (o nosso sling, por exemplo, fez sucesso), comparamos preços e marcas de fraldas, cadeirões e roupinhas, e cada um trouxe uma dica importante sobre o que fazer com brotoejas, picadas de insetos, caspinhas e assaduras.

Essa troca de experiências foi muito útil. Às vezes, ser mãe e pai é padecer no isolamento das ilhas Maternália e Paternália.

Essas reuniões são importantes para a troca de informações e, na pior das hipóteses, a gente come bem.

O encontro foi tão bom que decidimos repetir a dose para celebrar o primeiro ano das crianças. Como todos os bebês nasceram com diferença de poucos dias, terão direito a um parabéns em conjunto, com mais uma festa. Quem sabe até em forma de um novo piquenique.


Um ano de aventuras!
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Há um ano e dois dias atrás, acordei às quatro e meia da manhã dizendo: “Eu não estou conseguindo mais aguentar. É agora!”

Eu levantei meio sonolento e peguei a câmera.

Quando acabei de fazer os procedimentos para o teste…

“Os procedimentos” quer dizer “xixi”.

… abri a porta e chamei o Torero. Ficamos olhando para aquela tirinha de papel. Em segundos o resultado estava lá: dois tracinhos. Positivo.

Caramba! Era verdade! Rita estava grávida.

Dois e mil treze começava com uma notícia bombástica. Seríamos pais.

Era o início de uma maratona de alegrias e neuroses.

Nos primeiros dias da gravidez, eu não queria fazer esforço nenhum, nem lavar a louça.

Tivemos a emoção de ver o primeiro ultrassom.  E contamos a novidade para nossos pais de uma maneira diferente.

Dormi muito, enjoei, vi minha barriga crescer e meu QI despencar.

Descobrimos que nosso bebê seria ele e não ela, e tivemos muitos debates para escolher o nome de Matias.

A gravidez corria dentro da normalidade. Meu maior problema é que tinha me transformado numa múmia bege.

De repente, uma reviravolta extraordinária: Matias nasceu! E um mês e meio antes do esperado.

Depois disso o Barrigudos virou um blog sobre prematuridade. Passamos a contar como era nossa montanha russa diária na UTI.

Rita fez um texto que teve mais de 1,2 mil curtidas, dando visibilidade ao assunto. Houve até um Câmera Record e um Encontro com Fátima Bernardes sobre  prematuros.

Falamos sobre as dificuldades de amamentação, Torero virou um canguru e conhecemos anjos de avental.

Finalmente, depois de 23 dias de UTI, Matias foi para casa. Aí entramos na rotina de pais de primeira viagem, e entendemos a importância da licença-maternidade.  

Eu virei uma náufraga na Ilha Maternália, mas consegui fugir.

Ficamos tão escolados no assunto que até fizemos uns “mandamentos para os pais de prematuros”. E outros para os amigos dos pais de prematuros.

Hoje já estamos mais tranquilos. Até já fomos ao cinema. E nos rendemos à mágica dos sorrisos dos bebês.

Torero e Rita

 

PS:  No texto acima colocamos os links de alguns dos melhores textos que fizemos neste ano. Para lê-los, é só clicar sobre as palavras sublinhadas.


Álcool na gravidez pode dar ressaca para a vida toda
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No último post do ano, às vésperas das champanhes e sidras, um texto sobre prematuros, mães e álcool. A autora, para evitar problemas, pediu que seu nome não fosse revelado.

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O filho de uma amiga, hoje com 18 anos, nasceu de 8 meses e ficou 15 dias na UTI, porque uma pulmão não funcionava, o que é conhecido por membrana hialina.

Ele nasceu numa época em que as UTIs neonatais eram raras. Para internar uma criança tinha que tirar outra, o que era terrível ter que escolher quem viveria. Na minha cidade só tinha em dois hospitais, foi um sufoco. Mas conseguiram uma vaga, pois um bebê teve alta.

O motivo do parto prematuro, depois se descobriu, foi que a mãe, pessoa muito bacana, mas ignorante, achava que o bebê precisava adquirir anticorpos, e por isso não parou de beber.

Ela bebia muito e isso acabou antecipando o parto. Como o bebê nasceu em um hospital sem recursos, não tinha nem incubadora com respirador. Para piorar, ele teve cinco paradas respiratórias. Uma enfermeira sentou ao lado dele e, toda vez que ele parava de respirar, ela o fazia voltar. Essa enfermeira o acompanhou para o outro hospital quando conseguiram a transferência.

Quando completou nove anos, o menino começou a ter ausências (perdia os sentidos, mas não caia). Fizeram muitos exames e descobriram que ele tem epilepsia pela falta de oxigenação na hora do parto e por ela ter ingerido muita bebida alcoólica durante a gestação. O mais interessante é que hoje ele odeia qualquer tipo de bebida alcoólica sem mesmo saber dos problemas que teve quando nasceu.

O resultado é que ele tem que tomar medicamento pela vida toda, porque se ele parar as crises ficam piores a ponto dele ter convulsões, ele também tem dificuldade de aprendizado: não consegue aprender a ler. É ótimo em matemática, ótimo contador de histórias e aprendeu a tocar violão de ouvido. Mas de livros, infelizmente, ele foge.

Quanto à mãe do bebê, minha amiga, não arredou o pé da UTI sem o filho. Depois ficou tão enlouquecida que por um tempo não quis saber do bebê, então eu o levei pra casa e cuidei dele, até que um dia ela veio e o levou. Mas ele já estava grandinho.

Fiquei triste e feliz. Feliz porque ela não bebia mais e podia cuidar dele. Triste porque não foi fácil  me afastar dele. Ela o levou para morar em outro Estado e eu só o vejo duas vezes ao ano. Mas achei melhor eles conviverem. É muito amor para eles ficarem separados.

Ah, o pai não foi esquecido. Ele ia ao hospital todos os dias para que ela pudesse descansar, mas foi conivente com as bebidas. Quando o bebê teve alta, nunca o vi tão feliz. Porém, depois de 15 dias o bebê teve que voltar para o hospital, pois estourou uma hérnia de tanto ele fazer força para respirar nas primeiras horas de vida. Ele forçava a respiração com o diafragma. Era impressionante ver aquele menininho lutando para sobreviver.

Depois de tudo isso, quando o bebê tinha dois anos os pais se separaram e o pai caiu numa depressão muito grande, tão grande que não podia cuidar de si e nem dos filhos. Então nós cuidamos dos três. Ele casou de novo depois de 10 anos e teve outro filho que  teve gestação, parto e tem vida normal.

Espero que ajude as pessoas a entender porque é tão importante que a mãe não beba na gestação e durante a amamentação.

 


Éramos quatro prematuros, afinal.
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Há exatamente 5 anos, no dia 28 de dezembro de 2008, Gisele dava à luz duas gêmeas: Sophie e Yarin.

Passei uma gravidez difícil. Está certo que eu procuro ser bastante saudável, praticava esporte regularmente, alimento-me bem, procuro manter bons hábitos de vida, mas estava grávida de duas meninas univitelinas aos 34 anos de idade.

Desde a décima quinta semana eu tinha com um problema de “vazamento'' de líquido amniótico, problema que nunca vi similar, mas o fato é que, de tempos em tempos, eu tinha grandes vazamentos, como se a bolsa tivesse rompido. Ia correndo ao hospital e… nada, a quantidade de liquido estava normal, apesar de o vazamento continuar. Nunca souberam me explicar o que realmente estava acontecendo. Mas permaneci em repouso ABSOLUTO durante toda a gestação.

No dia 24 de dezembro de 2008 (28º semana de gestação), na ceia de Natal, eu estava num dos períodos de grande vazamento. Sentia o liquido escorrer o tempo todo, mas, como das outras vezes, acreditei que estava tudo bem.  Até que, na madrugada do dia 28, um domingo, vi escorrer um liquido esverdeado… Como eu estava usando um absorvente, pude ver, claramente, que algo estava ainda mais errado desta vez.

O obstetra estava viajando. Esperei que ele chegasse e tivemos de fazer uma cesariana de emergência e, na noite do mesmo domingo, dia 28 de dezembro, nasceram, após 28 semanas e 3 dias de gestação, minhas duas pequenas meninas: Sophie, a mais velha, e Yarin, a caçula.

A solidão daquela noite foi inesquecível e indescritível; algo que eu jamais sentira na minha vida. Nada, não havia nada nem ninguém no quarto em que passei aquela primeira e assustadora noite.  A barriga, silenciosa, o quarto, parado.

Não sabia o que deveria esperar após o nascimento delas, só conseguia ouvir o som débil da voz do médico me consolando: “Elas estarão melhor fora de sua barriga!''

Nada foi como eu havia planejado, ou como todas as mães planejam para seu primeiro filho. Todos felizes, flores, fotos, bebês gordinhos, papai assistindo ao parto, essas imagens de “foram felizes para sempre'' que sempre nos são mostradas.

bailarinaMeu marido chegou no susto. Ligaram para ele  e disseram “Vem logo, precisaremos fazer uma cesariana de emergência''. Quando chegou tudo já era insegurança. A barriga, de lugar seguro, tornou-se lugar hostil para minhas filhinhas e elas ganharam “incubadoras''  que ressaltavam ainda mais o tamanho de “bebê de útero'' delas.  Tão pequenas, tão cheias de fios, agulhas, esparadrapos.  Como superar isso?

Apesar de muito pequenas, as meninas nasceram bem. Sophie, em praticamente 3 dias, já respirava sem ajuda e estava tomando a embriagante dose de 3 ml de leite materno a cada 3 horas.  Yarin sofreu mais, precisou ficar entubada e chegou a pesar 1kg, nasceu com 1,430kg, mas, devido às dificuldades respiratórias, perdeu muito peso.

Demorei para poder pegá-la no colo.  Passaram por muitos profissionais, fisioterapeutas, fonoaudiólogas (para ensiná-las a sucção) e por muitos exames: raio x do cabeça, coração, pulmão…  Depois de 30 dias de UTI, fomos para a fase da “engorda'' e, meu Deus! Como cada 10g que cada uma ganhava era motivo de choro, comemoração e expectativas para a nova pesagem do dia seguinte.

belaMinhas filhas tiveram refluxo seriíssimo, saímos de casa com elas a primeira vez quando elas já tinham 5 meses! Visitas? Só depois de mãos lavadas e, muitas vezes, com máscara no rosto. O medo de voltar ao hospital era MUITO mais forte do que o constrangimento de pedir todo o cuidado do mundo aos parentes que vinham ver “as gêmeas''.

Passei os dias ao lado delas, amamentando, acordando as meninas a cada três horas (quem tem, sabe: sono de prematura é de pedra).

Durante todos os 44 dias que ficamos no hospital, entre UTI e “engorda'', só tenho a agradecer à equipe do hospital.  Profissionais que, sem dúvida, me deixavam mais tranquila cada vez que ia pra casa.  Médicos, enfermeiras e auxiliares bem preparados para a tarefa de lidar com bebês e com mamães prematuras e assustadas.

Neste ano, Yarin e Sophie vão completar 5 anos de vida.  Quem olha pra elas não vê nem de longe as meninas prematuras. São saudáveis, fortes, alegres, alimentam-se bem e não guardam nenhuma marca da prematuridade.  Yarin teve um problema respiratório grave aos 16 meses, mas, depois disso, nunca mais teve nada sério. São duas pequenas vencedoras.

Esse assunto ainda me comove muito.  Acompanho o blog Barrigudos e identifiquei-me com muitas coisas que vocês escrevem.

Apesar de eu já ter passado por outra gravidez, desta vez de um único bebê, o Lucah, que transcorreu super bem, sinto que a minha história, de mãe prematura, ainda não está totalmente resolvida para mim e, se escrevo este relato, é também para me ajudar a superar as fortes emoções pelas quais passei na gestação e nascimento das meninas.

Preciso acrescentar que, como eu, meu marido, também um pai prematuro, sempre ficou ao nosso lado, sempre esteve presente na UTI revezando comigo o colo para acolher nossas pequenas no “canguru''. Ele não escreveu este texto comigo, mas, certamente, assustou-se e comemorou cada uma das etapas que vencíamos.

Gisele P. Martins

Sophie com a saia de bailarina e Yarin, como a princesa Bela.

Sophie com a saia de bailarina e Yarin, como a princesa Bela.

 


Quando a pediatra vira paciente
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Hoje quem conta sua história é Paolla, uma pediatra que se viu na condição de paciente, e mãe de um prematuro.

paola

Na minha segunda gravidez, achei que tudo seria tranquilo, normal, que eu trabalharia até as 37 semanas, como as minhas amigas.

Isso foi ate a vigésima semana, quando tive um sangramento no trabalho e descobri que tinha placenta previa, que é quando a placenta não migra ate o fundo do útero, podendo recobrir todo o colo uterino, impossibilitando um parto vaginal e obrigando a mãe a ficar em repouso absoluto até o termo, porque qualquer (qualquer MESMO) esforço ou estresse pode causar um sangramento e colocar a vida da mãe e do bebe em risco.

Nesse período fiquei lendo sites, fofocando no facebook e procurando blogs, como este, onde comecei a ler a história do Matias. Quando vi que ele tinha nascido de 34 semanas, pensei “nossa, foi cedo''.

Como pediatra, fiz meus estágios em UTIs e ficava pensando na vida daquelas famílias, com seus bebês tão pequenos dentro de incubadoras. Também vi histórias de vida e de morte, comemorando e chorando junto em várias ocasiões. E, sabendo dos riscos de um parto prematuro, me preparei para isso, embora não o desejasse. Foram 3 doses de corticoide intramuscular (que me renderam episódios de hiperglicemia e uma suspeita de diabetes gestacional), mãe e sogra em casa para ajudar a cuidar de mim, da mais velha e da casa e muita ansiedade.

E, na trigésima-segunda semana, comecei a ter contrações que felizmente foram inibidas com uso de medicação em casa. Só que, na trigésima-quarta, a minha GO disse que, a partir daquele ponto, ela não faria outras medidas para inibir o parto, se eu sangrasse muito ou entrasse em trabalho de parto, o bebê iria nascer, pois já seria viável e o risco era muito grande (sem contar que o bebe era GORDO por causa da minha hiperglicemia e estava pressionando a placenta).

Dois dias depois comecei a sangrar e ela me mandou para a maternidade. Mas eu estava crente que ia fazer um exame e voltar pra casa. Quando entrei pra ser examinada e coloquei a camisola, senti uma contração e o bebe ENCAIXOU, descolando a placenta e causando o maior sangramento que já vi na minha vida (e olha que vi muitos).

Em dez minutos eu estava no centro cirúrgico. Cinco minutos depois, Isabella nasceu. Demorou para chorar e, quando chorou, foi só um “bunhe''. A neonatologista a levou para a sala de observação, enquanto a anestesista tentava controlar a minha pressão que teimava em cair absurdamente.

Quando fui para o quarto, me contaram que ela tinha sido levada para a UTI por causa de um desconforto respiratório, mas que não seria necessário entubar e nem usar o CPAP. Meu marido desceu para vê-la, mas eu só consegui ir no dia seguinte, porque a pressão continuava caindo. Quando consegui descer, queria tirá-la daquela incubadora, ficar com ela nos meus braços, sabia que não podia, mas ficava com aquela sensação de incoerência: Por que o meu bebê gordo, grande para um prematuro, tem que ficar ali dentro, longe de mim? Felizmente, ela melhorou rápido, mas precisou de fototerapia e, por conta de ter nascido com 34 semanas (35+5 pelo Capurro, mas a dúvida persistia), ficou no soro até termos certeza de que sabia sugar.

Só que ela resolveu fazer isso da maneira mais difícil. Na segunda noite, ela arrancou o soro da veia e ninguém conseguia achar outra! O neonatologista de plantão me chamou e disse que, ou mamava ou ganhava um cateter umbilical. Quase chorando, eu disse “ela vai mamar''. Minha entrada na UTI foi liberada a cada três horas, mas, se eu não chegasse a tempo, eles dariam leite na mamadeira pra não precisar passar o cateter, caso ela sugasse. E ela sugou.

No dia seguinte, ela foi liberada para a unidade de cuidados intermediários e, um dia e meio depois, para o quarto. Meu leite desceu no terceiro dia, depois de muita insistência para a bebê sugar e o uso da bomba para ordenhar. Viemos para casa após 5 dias e ela continuou engordando tão bem que hoje é até difícil de lembrar que ela nasceu prematura.

Paolla L. M. Alberton.

 

 


Na matinê com Matias
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cinematerna

(Hoje Rita escreve em preto e Torero, em azul)

 

Há muito tempo nós não íamos ao cinema. Tenho a impressão que o último filme que vi foi “Os embalos de sábado à noite”.

A primeira vez que eu e Torero fomos ver um filme, acabamos assistindo a dois seguidos. E isso acabou virando um hábito nosso, de tanto que a gente gosta de cinema. Mas na Ilha Maternália não tem cinema. Ou não tinha. É que descobrimos o CineMaterna*, sessões onde mães e pais podem ver filmes com seus bebês de até 18 meses.

Já para comprar o ingresso notamos a diferença. Todo mundo empurrava carinhos de bebê e estava na fila do caixa preferencial, que, no caso, não é uma grande vantagem.

DSC02490A sessão é preparada para crianças. Ou seja, o ar condicionado nunca está muito forte, há sempre um pouco de luz e o volume é um tanto mais baixo. Mas o filme é para adultos.

Logo na entrada da sala, depois de tirar foto com um Papai Noel, vimos um estacionamento de carrinhos de bebê. E há até manobrista. É que as pinks, as moças da equipe CineMaterna, estacionam o carrinho para os mais atrapalhados como nós.

Lá dentro já havia umas cinquenta pessoas. Bebês, mães, alguns pais e um casal de desavisados. Será que eles desistiram de ter filhos ou foram correndo fazer um?

Cinquenta espectadores é um bom público para o horário (14h00). E o preço do ingresso não tem nenhum acréscimo.

cinemNa fileira da frente há um tapete de atividades para os bebês. E há dois trocadores com fraldas, cremes para assaduras e lenços umedecidos à disposição. Nem precisamos sair com aquela bolsa lotada de coisas para o bebê.

Tudo grátis. Não que eu ligue para isso…

Quando começou a sessão, Matias se comportou como um cinéfilo. Ficou com os olhos grudados no telão. Deve ter pensado: Quem são estes gigantes?!

Depois de uns dez, quinze minutos, alguns bebês começaram a chorar.

Quando olhei para trás, vi cinco pais carregando seus bebês nos corredores laterais.

Eu fiquei muito orgulhoso porque Matias não estava chorando. Pensei: Meu filho será um diretor de cinema melhor que eu (o que não é nada difícil). Mas, depois de exatos trinta minutos, lá veio o berreiro. Então pensei: acho que vai ser crítico mesmo.

Enfrentei a situação de peito aberto. Ou seja, dei de mamar para Matias. E, quando olhei para os lados, vi que outras mães faziam o mesmo.

Em vez de pipoca, leite.

Matias mamou quietinho e depois pegou no sono. Ficou assim até o final do filme.

Que por sinal, foi bom. O título é ruim (À procura do amor), mas os diálogos são espertos, os atores estão muito bem e o filme escapa dos clichês da comédia romântica padrão.

Depois da sessão, algumas pessoas seguiram para um café ao lado do cinema. Essa foi uma chance para conhecer e conversar com outras mães e diminuir o isolamento da Ilha Maternália.

Depois disso começamos a acreditar que há vida social com bebês de colo.

 

*O CineMaterna está em 60 cinemas, 32 cidades e 15 estados. Para saber se há algum perto de você, olhe no site: http://www.cinematerna.org.br/


O açúcar de Fernandinho
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Hoje a história de UTI será contada por Daniela, mãe de Fernandinho. Não é um caso de prematuro, mas de diabetes.

fernandinho2

Sou diabética desde a infância e assim que fiquei grávida sabia dos riscos que meu bebe corria.

Tive uma gestação supertranquila, sem nenhuma complicação, exceto pela morte de meu pai, faltando vinte dias para meu parto. Mesmo com esse acontecimento, meu parto foi na data prevista.

No dia, tudo tranquilo. Meu neném nasceu com 3,780 kg, sem hipoglicemia (um dos maiores riscos para filhos de diabéticas, pois durante a gestação a mãe utiliza o pâncreas do neném e, quando ele está no ambiente externo, acontece uma desordem natural que deve ser bem assistida).

Eu não tinha leite. Por causa da morte de meu pai meu leite secou. O neném tinha muita fome e chorava sem parar. Davam uma quantidade pequena de leite para ele e ele chorava, chorava até que parou e parecia ter desmaiado.

Corri na enfermaria e me falaram que era normal, que sentem muito soninho. Eu percebi que era hipoglicemia, pois quando eu tenho fico como ele estava: com muita fome e depois extremamente cansada. Até já desmaiei.

Depois de implorar bastante por cuidados médicos, resolveram fazer um exame de sangue. Aí viram o grande problema: a glicemia dele estava 21, enquanto o normal é entre 70 e 110. Levaram-no direto para a UTI para tomar glicose. E ele teve que fazer uma série de exames para saber se tinha havido alguma lesão cerebral.

Ter um bebê na UTI foi a experiência mais dolorida que tive em vida. Eu e meu marido nos alternávamos na vigilância. Mesmo que pouco pudéssemos fazer, existe aquela sensação de que o bebê chama por você 24 horas por dia. Foram quatro dias sem dormir.

A agonia maior é pelo boletim médico. A notícia pode ser preocupante, que nada mudou ou até que o pequenino é um lutador e está vencendo. Meia hora depois, o medo volta a assombrar. E agora? Será que ainda está melhorando? E se algo aconteceu? Não é o caso de repetir todos os exames?

fernandinho31Foi na UTI que Fernandinho recebeu seu primeiro banho da mamãe. Desajeitada por ser mãe de primeira viagem, mas com todo carinho e cuidado para não desligar nada e ter que ver seu bracinho furado novamente.

Fernandinho ficou quatro longos dias na UTI… E não teve nenhuma sequela!

A saída da maternidade foi um momento tão mágico e maravilhoso que eu não acreditava que estava acontecendo. Lágrimas escorriam de felicidade.

Fernandinho chegou em minha vida vinte dias depois que perdi meu Fernandão. As últimas palavras de meu pai antes de entrar na cirurgia foram: “Doutor, preciso voltar para conhecer meu xarazinho''.

Ele infelizmente não voltou, mas sinto no meu filho a memória de meu pai vivo, pois meu pai já o amava mesmo sem nunca ter tido a chance de vê-lo.

Daniela Nunes